As últimas semanas foram doloridas para as mulheres. E essa dor dificilmente passará. Um estupro coletivo foi cometido no Rio de Janeiro (e dias depois outro caso foi relatado no Tocantins) e veio à tona quando um vídeo do crime foi divulgado na internet. Chocou primeiro a internet para, só depois, tomar a devida importância na grande mídia do país. Chocou todas as mulheres mas não chocou muitos homens.

Chocou todas as mulheres porque somos vítimas de uma sociedade machista que objetifica nosso corpo e nos culpa por ações cometidas por homens. Nós vivemos isso diariamente, seja na vida real ou na TV, que contribuí muito para essa objetificação – lembram da Globeleza?. A cultura do estupro esta aí e nós precisamos, sim, falar sobre ela.

O termo cultura do estupro surgiu em 1970, nos Estados Unidos, com o objetivo de mostrar como a sociedade culpava (e ainda culpa) as mulheres vítimas de violência sexual. A cultura do estupro envolve crenças e normas comportamentais que banalizam e toleram a violência sexual contra a mulher.

Os valores que são atribuídos às mulheres, como as condutas que devemos seguir, nos tiram o direito ao corpo e nos objetificam. Se você (homem ou mulher) alguma vez já falou que uma mulher deve se dar o valor, você faz parte da cultura do estupro. A nossa liberdade sexual entra em jogo quando esses valores nos são atribuídos e, é a partir daí, que nós temos que pensar mil vezes na roupa que iremos vestir para não sermos culpadas pelos atos dos outros.

São esses valores que culpam a vítima, como aconteceu com a garota de 16 anos que sofreu um estupro coletivo no Rio de Janeiro. Foram mais de 30 homens envolvidos no ato e o que nós mais vemos e ouvimos por aí? “Que ela pediu”, “se tivesse em casa não teria acontecido” e mais uma manada de comentários absurdos que circulam os portais de notícias e postagens no Facebook. Nós vemos pessoas e a TV dissecarem o passado da vítima em busca de uma explicação para o ato, mas nós não vemos ninguém expor os agressores como fazem com a menina. E isso, minha(meu) amigx, tá muito errado.

Há textos culpando o tráfico de drogas. Há textos culpando a vítima. Há delegado (e muitas pessoas) duvidando da vítima. Há agressores saindo de cabeça erguida compartilhando o mesmo local de depoimento da garota abalada física e psicologicamente. Mas não há textos culpando os agressores.

O que há, são textos os chamando de monstros, os tratando como possuidores de alguma patologia e dizendo que esses homens são desumanos. Justificar o comportamento dos agressores com esses termos os reduzem ao fato de que somente portadores de alguma patologia são capazes de tal atrocidade. Mas ao contrário do que muitos pensam, a maioria esmagadora de casos de estupro são cometidos por homens “normais” e que não reconhecem seus atos como violência. É aí que entram as estatísticas. E ao contrário do que afirmou o secretário de Segurança Pública de São Paulo, Mágino Alves Barbosa Filho, o número de estupro de nada tem a ver com a taxa de desemprego ou a crise econômica que o país enfrenta atualmente

Os dados nacionais sobre a violência contra a mulher mostram que 50.320 estupros foram registrados no Brasil em 2013. Já o documento Estupro no Brasil: uma radiografia segundo os dados da Saúde aponta que somente 10% dos casos de estupro são notificados no Brasil e estima que, no país, haja anualmente 527 mil tentativas ou casos de estupros consumados. Em 2014, a cada 11 minutos uma pessoa foi violentada sexualmente no Brasil.

Ainda de acordo com os dados nacionais sobre a violência contra a mulher, “Em 67,36% dos relatos, as violências foram cometidas por homens com quem as vítimas tinham ou já tiveram algum vínculo afetivo: companheiros, cônjuges, namorados ou amantes, ex-companheiros, ex-cônjuges, ex-namorados ou ex-amantes das vítimas. Já em cerca de 27% dos casos, o agressor era um familiar, amigo, vizinho ou conhecido”.

Ou seja, aquela frase que tanto ouvimos por aí “se tivesse em casa não teria acontecido”, além de ser uma mentira, ainda contribui para a cultura do estupro, para a desigualdade de gênero e perpetua a ideia de que a mulher é propriedade do homem.

Na TV é comum a romantização de diversos casos de violência contra a mulher e muitas séries contribuem para mostrarem a cultura do estupro. Junto com tortura e morte, esse tipo de violência é uma das piores coisas que pode acontecer com um personagem. Nos últimos anos os casos de estupros nos seriados americanos, principalmente, vem aumentando como uma justificativa de retratar a realidade mas o que vemos é um padrão onde as mulheres estupradas são frias, mal-amadas e até mesmo odiadas pelo público. O recurso é usado para criar tensão e servir de gatilho para que criemos certa empatia com as personagens já que a partir do momento em que descobrimos o passado de vítima delas, somos capazes de humanizá-las, por isso muitos produtores de TV têm se aproveitado de situações como essa.  

“Se tivesse em casa não teria acontecido”

Como já mostrado anteriormente, essa é a pior das “desculpas” para justificar um estupro ou algum tipo de violência contra mulher, visto que a maioria dos casos acontecem dentro de casa.

Em Mulheres Apaixonadas, Raquel era frequentemente agredida por seu marido, Marcos, mas não tinha coragem de denunciá-lo. Não era amor que a fazia não denunciá-lo, era medo. Não era amor que fazia Marcos agredi-la, era a sensação de poder. A romantização de situações assim ainda acontece na TV, onde casos de estupro são justificados por amor.

A série de maior sucesso da HBO nos últimos anos, Game of Thrones, tem muita objetificação dos personagens femininos. Algumas aparecem sem motivos, só para chocar os telespectadores ou cumprir a cota de nudez da série. Já foram 3 as personagens estupradas por pessoas próximas: Cerzei, Daenerys e Sansa. A última cena dessa violência foi um divisor de opiniões: Sansa Stark é forçada a fazer sexo com seu marido sob os olhos de outra pessoa. Muita gente que era fã da série simplesmente parou de acompanhar a produção por achar totalmente desnecessária uma cena como aquela. Os produtores afirmam que as cenas precisam ser mostradas mas, convenhamos, há que se admitir que as cenas de estupro na série são meras coadjuvantes na construção das personagens.

Era isso que você queria, não era? Não era?
Era isso que você queria, não era? Não era?

Continuando a lista, ainda temos Mellie, de Scandal, que foi estuprada por seu sogro, na sala de sua casa. Joan, de Mad Men, estuprada por seu noivo no escritório. Bonnie, de How To Get Away With Murder, foi estuprada por seu pai. Pensatucky, de Orange is The New Black, por um dos oficiais da cadeia – e antes disso pelo seu namorado. Além do crime, o que mais essas séries têm em comum? Nenhum dos agressores fui punido. Todos continuaram de cabeças erguidas como se nada tivesse acontecido. Enquanto as vítimas carregam o medo a culpa consigo.

“Olha a roupa que tava usando! Tava pedindo!” ou “Bonita desse jeito tinha que ser estuprada mesmo”

Peraí, amigxs! Ninguém sai de casa pedindo pra ser estuprada. A Kelly, de Barrados no Baile, era linda, popular e usava roupas sexy mas nenhuma dessas coisas justifica o violência sofrida por ela.

Em 1980, a novela Coração Alado mostrou uma cena de estupro protagonizada por Vivian (Vera Fischer) e Leandro (Ney Latorraca). A autora da trama, Janete Clair, contou na época que a história foi baseada em uma carta que recebeu de uma telespectadora que contava que havia sido estuprada por seu cunhado. O ator Ney Latorraca justificou a atitude do seu personagem como um momento de fraqueza, culpando a beleza da personagem de Vera Fischer pelo ocorrido.

“Andando sozinha tarde da noite, tava pedindo”

Fatmagul, personagem-título da novela estrangeira transmitida pela Band, mostra os desafios que a protagonista enfrenta para reerguer sua vida após um estupro coletivo. Ela é estuprada por alguns rapazes quando anda a noite sozinha. Rejeição, culpa e ainda a obrigação de casar com um dos seus supostos agressores são alguns dos castigos que a moça enfrenta por ter sido estuprada.

“Mas ele a amava, isso não é estupro”

Em Ligações Perigosas, o o sedutor Augusto (Selton Mello) “conquistou” a romântica Cecília (Alice Wegmann). A personagem é chantageada pelo homem que invade seu quarto no meio da noite. OBS: os comentários do vídeo ilustram bem a cultura do estupro quando dizem que “isso não é estupro” e “ela gostou”.


“A culpa é dela por estar drogada”

Em Verdades Secretas quando a cena de estupro da personagem de Grazi Massafera foi ao ar, muitos culparam as drogas, não os homens, pelo o corrido. Assim como aconteceu com o caso da garota do Rio de Janeiro.

“Bêbada daquele jeito, tava pedindo”

O BBB também é recheado de polêmicas. Em 2012, o participante Daniela foi expulso do programa após ser acusado de estuprar a participante Monique, que estava insconciente após uma festa na casa. Em 2016, a Rede Globo escolheu entre seus participantes, Laércio, um homem que comprovadamente tinha relações com menores de idade. Quando confrontado pela participante Ana Paula, por seu comportamento dentro e fora da casa, foi a mulher quem saiu da história como louca e histérica. Ele era o herói e a emissora não fez nada a respeito. Enquanto ela foi expulsa do jogo, ele continuou. Após várias denúncias, ainda quando participava do programa, no início de maio o ex-BBB foi preso por estupro de vulnerável.

Em Veronica Mars, o ponto de partida da série é o estupro da personagem-título. Após ter sua bebida adulterada, Veronica acorda na manhã seguinte sem lembrar do que aconteceu mas ciente do que aconteceu. Nós não vemos a cena, mas sim a perspectiva da vítima sobre o ocorrido e os desafios que a personagem enfrenta ao tentar remover essa marca de sua identidade. Assim como muitas mulheres, Veronica é uma sobrevivente que não tem seu caso investigado pela polícia da cidade e, ao contrário do que muitas séries fazem com seus personagens femininos, a força de Veronica não vem somente do fato de ter sido estuprada.

“Estupradores são gênios” ou “Comia ela e o bebê”

A TV brasileira ainda abriga alguns homens que fazem piadas machistas e sexistas e os tratam como bons moços enquanto são idolatrados por muitos fora das telinhas. É o caso de Danilo Gentilli e Rafinha Bastos. Mas não podemos esquecer também, dos novos fenômenos do Youtube, jovens, de classe alta e repleto de fãs mulheres. Tão cheios de fãs e tão cheios de machismo. Contribuem livremente para a cultura do estupro.

Ainda no Brasil, quando o caso do estupro coletivo veio à tona, o ator e estuprador Alexandre Frota protagonizava um dos maiores paradoxos da história brasileira, participando de reuniões de pauta para a Educação. Quando ele confessou com orgulho um estupro na TV aberta brasileira, foi ovacionado pela plateia e, até hoje, não foi condenado.

danilo gentilli estupro

Law & Orderm: SVU e The Fall vão na contramão da romantização do estupro e culpabilização da vítima e mostram casos da violência tratados de forma séria e bem madura. Ambas as séries são protagonizadas por mulheres fortes e que não toleram esse tipo de comportamento.

the fall

O vídeo abaixo mostra várias séries que trazem o estupro em seu roteiro:

A lista de séries que mostram a cultura do estupro é imensa e falar sobre o assunto nos deixa com o peito apertado. Mas nós precisamos falar sobre isso e os produtores de TV e a sociedade como um todo precisam aprender que lugar de mulher é onde ela quiser, fazendo o que quiser e vestindo a roupa que lhe convier.

Gosta de televisão? Então aqui é o seu lugar. Siga a Revista Pixel TV no Facebook, no Twitter e também no Instagram.