Há alguns dias, quando conversava com meus amigos sobre pessoas que leem muito e se encaixam na categoria de “devoradores de livro”, alguém soltou meio displicentemente na conversa a expressão “estilo Rory Gilmore de ser” – uma alusão a uma das minhas personagens de séries favoritas e uma confessa amante de livros. Depois disso, a única coisa em que eu conseguia pensar era como essa expressão tinha casado tão bem com aquilo que nós estávamos falando, e como sempre buscar em personagens de filmes e séries equivalências para os nossos gostos e ações é algo mais comum do que a gente costuma notar.

Essa nossa geração, que cresceu com o botão do controle remoto colado na ponta dos dedos e com o mouse preparado para dar o play a qualquer instante, tem esse reconhecimento com o outro lado da tela muito mais forte do que o de um simples espectador. Afinal, quantas vezes não vimos um personagem passar por uma situação que a gente mesmo já viveu ou se imaginou vivendo, e acabar se identificando com o jeito como a pessoa lidou com o fato? Quem já não viu personagem pagando mico, confessando desejos inconfessáveis, se mostrando cheio de manias loucas, sonhos, defeitos e aí pensou “te entendo”? Aquele reconhecimento instantâneo ao se ver refletido do outro lado da tela.

Como quando a gente passa pelo pior dia da história de nossas vidas e quer se afundar no sofá no melhor estilo Hannah de Girls de ser. Ou quando o amigo que odeia fazer aniversário faz aquela mesma expressão chorosa de nosso querido Joey Tribbiani. Ou quando você perde o limite do cartão de crédito e se sente um pouco Carrie Bradshaw na elegância, pra logo depois bater o desespero da falta de dinheiro.

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Se reconhecer – ou reconhecer alguém – em um personagem é normal. Tão normal que talvez seja esse um dos motivos primordiais que nos faça assistir cada novo episódio de série ou rever aquele mesmo filme incontáveis vezes. Não são só histórias e enredos que nos prendem, mas principalmente personagens de características fortes o suficiente pra aprendermos a amar/odiar. E enxergarmos um pouco da vida real – da nossa, da do vizinho, da do amigo, da do porteiro do prédio – ali representada.

Ah, quantas vezes eu não pude jurar que a Norma Bates tinha personificado a mãe controladora do meu amigo e que Kevin Arnold, mesmo vivendo em uma época, idade e contexto tão diferentes do meu, parecia tirar uma moral de cada uma de suas experiências que era dirigida diretamente a mim?

Entre reconhecimentos próprios e alheios, é quase certo que algum personagem te desperte, se já não é que despertou, essa sensação de não estar só no mundo. Por um momento a gente esquece que existe algo que separa realidade de ficção, e só tem a certeza de que alguém entende muito bem a gente. Com todos os defeitos, esquisitices e manias que ninguém mais parecia entender.

É assim que nasceu a coluna Ponto a Ponto, da empatia, simpatia e reconhecimento no outro, no estilo do outro e no nosso.