De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça: amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera
Ou se vacila ao mínimo temor.

Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante
Cujo valor se ignora, lá na altura.

Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfanje não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,

Antes se afirma, para a eternidade.
Se isto é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou
– William Shakespeare – Soneto 116.

Entre tantos poemas de amor, esse sempre foi o meu preferido. Lembro que tinha 17 anos na época, na aula de literatura inglesa. Coincidentemente, poucos meses depois do meu primeiro “fora”. Eu jurava que o amava, e não conseguia ver meu futuro sem ele. Nos conhecemos na pré-adolescência. Nos odiávamos, claro, e demorou um tempo para aceitar que aquele nervoso na hora do intervalo da escola significava algo além da vontade de comprar coxinha na cantina. Vestibular, faculdade, noites de cinema, jantares, era tanta novidade, um querer bem que crescia a cada dia. E a gente se escrevia poemas e canções para expressar o que o nosso jovem amor significava. Até o dia que tudo acabou, sonetos, rimas, nada fazia mais sentido. Naquela época, eu costumava pensar que eu e ele éramos como Joey e Dawson, em Dawson’s Creek. Ninguém me contou o grande spoiler da vida.

Até hoje, quando penso em amor, costumo encarar o romance como um seriado. Já tive namoros tipo Brooke e Lucas de One Tree Hill, Ted e Victoria de How I Met Your Mother e ate mesmo Will & Grace! Alguns realmente não eram amor, mas por causa de Shakespeare sempre lembro que o verdadeiro afeto não é aquele que move céus e terras, ou urge de uma explosão momentânea. Não espera o dia 12 de junho para se comemorar o Dia dos Namorados, aliás, não precisa nem de compromisso, para torná-lo verdadeiro. Não termina quando acaba. Há várias formas de amar, e elas devem ser celebradas sempre.

Amor platônico

A impossibilidade de não concretizar fisicamente a paixão. Entre idealizar uma pessoa e a inabilidade de tocar o ser amado, temos vários tipos de casos na ficção. Em Master of None vemos o desenrolar da paixão de Dev pela inalcançável Francesca. A italiana representa a simplicidade, a mulher sem defeitos que tira o protagonista de sua zona de conforto sem exigir nada em troca, naturalmente bela, engraçada e adorável. O fato de ser estrangeira e estar comprometida traz algo de irreal e impossível na relação, a realidade impede de ficarem juntos.

Já em Pushing Daisies temos o amor juvenil que recebe uma nova oportunidade. Ned tem o poder sobrenatural de, com apenas um toque, reviver os mortos, porém ao tocá-los novamente, eles voltam ao estado final. O dom se mostra uma maldição quando o protagonista encontra uma paixão juvenil, Chuck. Revivê-la fez ele ter a oportunidade de se reaproximar dela e descobrir que o amor ainda existia, entretanto, seu dom impossibilita eles concretizarem fisicamente o amor. Entre trocas de olhares e sentimentos não verbalizados, vemos o relacionamento florescer.

Amor verdadeiro que um dia acaba

Que não seja imortal, posto que é chama. Mas que seja infinito enquanto dure” já dizia Vinicius de Moraes. Relacionamentos não precisam ser eternos para terem validade, nem toda história de amor termina quando acaba o relacionamento. A ficção está cheia de exemplos de casos que seja pelo destino, fases da vida ou cancelamento precoce da série, o casal não terminou junto.

Quem acompanha séries da Shonda Rhimes ou Joss Whedon  já percebeu que não é necessário ter um “felizes para sempre” para ter um história de amor. Enquanto em séries da Shondaland temos dramas e romances intensos, quase paixões, que após terminarem deixam no lugar uma amizade, admiração e alguns rancores. Só em Grey’s Anatomy podemos citar Arizona e Callie, Lexie e Mark, Jackson e April, Mark e Addison e a mesma com o Mcdreamy. Seja por dividirem o ambiente de trabalho, um filho ou uma história, esses casais conviveram e se tornaram amigos, mesmo com alguns dramas ocasionais,  pós fim do relacionamento.

Já no no universo criado por Whedon, temos Dollhouse, com o romance entre Echo e o policial Paul Ballard; Buffy – a caça vampiros,  com  a protagonista e seu relacionamento com Angel ou Spike; e até mesmo o romance de Inara e capitão Malcolm em Firefly, em que vemos amor e confiança construídos aos poucos de maneira calma, entretanto, a morte, o afastamento involuntário ou a vida fizeram esses relacionamentos sucumbirem. Mesmo assim, a mudança causada nos personagens e a importância que dos mesmos tiveram na trajetória, nunca foi esquecida, se transformando em parte fundamental da história e personalidade dos mesmos.

Poliamor

Amor pode vir em várias formas e formatos. Acostumados pelas séries em crer em triângulos amorosos e lutas pelo “amor verdadeiro”, às vezes esquecemos que há como amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo e que isso não necessariamente tem que levar ao sofrimento intermináveis. Algumas séries nos mostram que o amor pode ser entre uma pessoa e mais de um indivíduo, podendo estes interagirem amorosamente (ou não), dividir o mesmo teto ou todas as opções acima.

Em Big Love, série da HBO, vimos o relacionamento de Bill com suas três esposas e como ele tentava manter suas três casas. Por cinco temporadas, assistimos a retratação da poligamia e como cada esposa e filhos interagiam nesta situação, desde a filha mais velha que nasceu quando o pai tinha um relacionamento monogâmico até o filho mais novo que cresceu em meio a essa nova formação familiar e não via a problematização e a diferença entre o relacionamento com a mãe e as outras esposas de seu pai. Temos os dramas familiares mas também a visão da sociedade sobre essa forma de amor.

Em Aline, série brasileira baseada no quadrinho da década de 90 de Adão Iturrusgarai, a protagonista vive em São Paulo e divide apartamento com seus namorados Otto e Pedro. Seu relacionamento a três é tratado com leveza e naturalidade. Eles se amam, e apesar de o fator sexual ser exclusivamente entre Aline com cada um deles (os dois homens tem uma relação de amizade entre si), isso não invalida o relacionamento. Ninguém está ali para suprir desejos ou faltas, é uma relação de respeito mútuo.

Já em Eu, tu, ela vemos uma relação em que todas as partes se relacionam de modo amoroso sexual. A história começa quando o casal Jack e Emma resolve se relacionar com Izzy Mais do que uma pretensa fantasia, há pessoas reais envolvidas no relacionamento, com desejos e inseguranças. Vemos durante a temporada como de um possível fetiche se transforma em uma relação a três.

Amor Eterno

Quem nunca sonhou com um amor que sobrevive a qualquer adversidade, inclusive à morte? Esse é o tipo de amor menos comum, porém mais retratado pela TV e pelos filmes, e que desde crianças somos ensinados a buscar. Encontrar alguém para passar o resto da vida não é simples. Além de ser difícil encontrar uma pessoa, às vezes é difícil mantê-la e resolver os problemas, vide o caso Elena e Damon, de The Vampire Diaries. O casal começou negando a paixão e, quando finalmente resolveram se juntar, passaram a comer o pão que o diabo amassou. Foram separados por maldições, prisões e, inclusive, pela morte. Porém, nada fez com que o amor que tinham um pelo outro se abalasse – pelo contrário, os dois só se amavam mais a cada dia. E tiveram um final feliz, merecido, após tantos anos de sofrimento.

Em um universo mais realista, temos o caso de Castle e Beckett. Após a demora de quatro anos para ficarem juntos, o casal não poderia se amar mais. O amor de Caskett sobreviveu ao sumiço de Castle do próprio casamento e à sua perda de memória, às diversas quase mortes de Beckett e à sua obsessão com um político. Ao final, baleados, Castle e Beckett se arrastam em direção um ao outro para morrerem juntos. E o amor, ah, ele superou a morte, e deu ao casal o seu felizes para sempre. Esse com certeza é o amor mais difícil. Porém, as séries mostram que ele vale a pena!

Amor Não Correspondido

Desde nossas primeiras paixões até encontrarmos o grande amor de nossas vidas, somos frequentemente frustrados. Porém, a frustração maior dentro do amor é aquele momento em que não existe nem a chance de algo se concretizar. A maioria das pessoas passa por isso e, portanto, entendemos a dor de Xander (Buffy), a de Nicky (Orange Is The New Black), a de Morty (Rick and Morty), a de Mike (Stranger Things), entre outros mil personagens que sonham com parceiros que, aparentemente, jamais terão. Desde a pré-adolescência, isso acontece. Mike é apaixonado por Eleven, que mal percebe que todo o cuidado dele para com ela é mais do que simples preocupação; Morty passa noites e dias pensando em Jessica, entra em diversas das loucuras de seu avô para conquistá-la, porém a garota mal se dá conta de sua existência, na maior parte do tempo; Xander, mesmo saindo com outras garotas, sonha com Cordelia durante anos até desistir – o mesmo para Willow, que é apaixonada pelo amigo desde a infância. Na vida adulta, aparentemente, casos assim se tornam menos comuns. Porém, Nicky, apesar de adulta, não deixa de sofrer. Apaixonada por Lorna, vê todas as suas possibilidades irem por água abaixo quando percebe que a amiga apenas a usa como alívio de suas tensões sexuais, mas nem pensa em considerá-la como par romântico. É, talvez não seja tão incomum assim. Porém, em casos assim, nem tudo está perdido. Em quase todos esses exemplos, eles superam, e descobrem diante de si uma vida cheia de possibilidades à sua frente.

Amor trágico

Uma história cheia de altos e baixos e inúmeras reviravoltas, que durou metade de uma vida e só terminou com o fim dela. Você conhece essa história? O amor de Deacon e Rayna é uma das mais bonitas histórias que já vimos nas telinhas. O casal superou todos os problemas, como o alcoolismo de Deacon e o casamento de Rayna com Teddy. Quando os pombinhos finalmente conseguiram ficar juntos, a história foi tragicamente interrompida por uma triste acidente de carro, que tirou a vida da cantora. Além da filha Maddie, esse amor rendeu belas canções de amor, que abrilhantaram a trilha sonora de Nashville. Sem dúvida, um amor do tamanho da vida.

E por falar em tragédias e amores, houve algo mais romanticamente perturbador do que essa cena?

Eu ainda não me recuperei da morte da Marissa em The O.C.!

Amor monogâmico

Um dos melhores casais de séries (ao meu ver) é formado pelo Coach Taylor e sua esposa Tami, da inesquecível Friday Night Lights. Embora a vida dos dois parecesse chata e sem emoção em muitos momentos, ela nos mostra a força do amor cotidiano, daquele que é construído dia a dia. Afinal, amar e dividir uma vida é isso, né? É lidar com contas para pagar, com filhos, com a rotina do casamento, os problemas no trabalho, a dificuldade de conciliar sonhos e planos… E, nesse caso, a maior dificuldade é continuar amando alguém mesmo tendo que enfrentar as agruras do cotidiano que nem sempre são muito emocionantes ou legais. Um amor cheio de companheirismo como esse é o objetivo de relacionamento de muito gente, né?

Outro exemplo mais recente é o super casal de How I Met Your Mother, Lilly e Marshall. Não é atoa que eles são uma espécie de #relationshipgoals para 10 a cada 10 amantes de series. Alguém consegue se quer imaginar um sem outro? Nem o tempinho em que ficaram separados fez com que a relação dos dois de fato se abalasse. A cumplicidade era tanta que acredito que nem em uma realidade paralela o ship se separaria!

Amizade que virou amor

Ninguém namora um inimigo, então amores entre amigos são mais do que comuns. Apesar dessas histórias nem sempre começarem com o pé direito. É o caso de Brennan e Booth em Bones. Aqui não consigo pensar em exemplo melhor de um relacionamento que floresceu de um tipo de amizade incondicional. Os dois provaram ao longo das 12 temporadas que a base para o amor mais terno está realmente na confiança que um tempo pelo outro.

Um pouco disso também se repete na relação de Luke e Lorelai em Gilmore Girls. Os dois começam uma amizade nas primeiras temporadas (entre cafés, puxões de orelha, brigas e diálogos rápidos demais) e, com o tempo, essa relação se transforma em algo cada vez mais especial (quando eles enxergam que, por trás daquela conversa e dos sorridos, havia compreensão, carinho e amor recíproco). O casal chega ao ponto de vivenciar grandes alegrias juntos (como a formatura de Rory, por exemplo), mas também enfrenta momentos tristes demais, como a dificuldade de Luke fazer com que sua filha também fizesse parte da vida deles ou quando Lore e Luke perceberam que o casamento ideal não aconteceria tão cedo. É algo complicado (como toda história de amor), mas a confiança e o amadurecimento, como amigos e parceiros, ao longo do tempo, permitiu mostrar que o verdadeiro amor está nas pequenas atitudes, nos gestos mais simples e nos momentos mais inesperados.

Assim também foram os relacionamentos de Scully e Mulder em Arquivo X, Pacey e Joey em Dawson’s Creek e Lois e Clark em Smallville. Quando a amizade vira amor, pode contar que eh para a vida toda. TODA! (Ouviu Chris Carter?)

Amores improváveis

Quando você menos espera o amor acontece. Apesar da expectativa do publico, Leonard e Penny dão exemplo de como o amor pode estar onde você menos espera. Apesar do cientista ter demonstrado interesse na vizinha desde a primeira vez que os dois se viram, o “eu te amo” da loira aconteceu bem mais para frente, quando os dois já tinham tentado ficar juntos algumas vezes. Outro casal, exemplo de amor verdadeiro, e que para mim também aconteceu sem nenhum aviso prévio é Chloe e Oliver de Smallville. Quem diria, né? Mas os campeões de improbabilidade pegaram carona da amizade de anos e fizeram do famoso one night stand, um noite para a vida toda. Como não querer um amor como o de Chandler e Monica? Esse aí já nasceu clássico.

Self-love

O mais importante tipo de amor é o amor próprio. Não dá para amar outra pessoa se você não amar a si mesma, e pode ate parecer piegas, mas é a mais perfeita verdade. E talvez esse seja o tipo de amor mais complicado para a maioria de nós. Acontece que amar a si própria é uma forma de amor honesta, que aceita e reconhece a falhas, mas não diminui por causa disso. Ah, não podemos também confundir o self-love com vaidade, na verdade, pode ser ate o oposto. Está ligado ao respeito com você mesma. Um exemplo que gosto de pensar quando falo de self-love é o da Phoebe Buffay de Friends. Mesmo em momentos terríveis, quando a autoestima de qualquer um poderia se abalar, a personagem sempre se colocou em primeiro lugar. Outro exemplo disso é a relação que Samantha em Sex and The City desenvolveu consigo mesma. Acompanhada ou sozinha, todos os dias são dias de amar.

Amar é… bom, amor pode ser tudo isso aí. Só não esqueça, qualquer tipo de amor vale a pena!

 

Colaborou Clara Lima, Carol Cadinelli, Lorena Vila Real e Gabriela Assmann. 

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