Após duas temporadas e um episódio especial (que deve ser disponibilizado na Netflix no primeiro semestre de 2018), Sense8 se despedirá das telas e deixará milhares de fãs órfãos no mundo todo. Mas, se a audiência da série não era tão grande, porque ela se tornou um fenômeno a ponto de seu cancelamento causar comoção? A resposta é simples para quem foge da superficialidade dos números: Sense8 é um fenômeno porque dá voz e vez para pessoas como Jamie Clayton, a brilhante intérprete de Nomi Marks.

Não à toa, vamos nos dedicar a falar dela, esta mulher digna de admiração: Jamie Clayton. Nascida em 15 de janeiro de 1978, em San Diego na Califórnia, Jamie é filha de um advogado criminalista e de uma organizadora de eventos. Se você acredita em astrologia, deve saber que a garota estava destinada a nascer neste dia. Dizem os astrólogos que os nascidos de 15/01 costumam se deparar, inevitavelmente, com o heroísmo em algum momento das suas vidas. Eles lideram e inspiram os seus semelhantes e têm um desejo incontrolável de melhorar o mundo.

“Durante muito tempo eu senti medo de ser quem eu sou porque aprendi que havia algo errado em ser como eu”

Talvez o momento de virada na vida de Jamie foi quando ela se descobriu transexual. Em entrevista ao Advocate, a atriz conta que desde pequena sentia que havia algo diferente com ela, mas não sabia exatamente o que, já que não conhecia pessoas transexuais. Foi somente quando se mudou para Nova Iorque, aos 19 anos, para tentar carreira como maquiadora, que conheceu outras mulheres como ela e se percebeu enquanto trans. Segundo ela, foi somente neste momento que ela pode enxergar alguma luz e encontrar um lugar na sociedade no qual ela podia se encaixar. Depois disso, foi questão de tempo para a atriz passar pela cirurgia de redesignação sexual em 2003.

A carreira como modelo e atriz começou em 2008, quando Jamie namorava um colunista do New York Observer. Ele resolveu contar a história dela, que rapidamente se disseminou pela web e transformou a atriz em uma sensação da internet, especialmente entre a comunidade trans. Rapidamente, ela foi convidada para o  The Tyra Banks Show e foi pauta de uma matéria do CBS News. A partir daí a fama e o sucesso foram uma questão de tempo.

Sua estreia na televisão foi em 2010, ao lado de outras duas mulheres trans, Laverne Cox e Nina Poom, no show TRANSform Me. O show teve apenas 8 episódios e a proposta era escolher mulheres para passarem por uma transformação comandada pelas 3 mulheres trans: Laverne, Jamie e Nina.

Já no ano seguinte, 2011, Jamie foi descoberta pelos produtores da série Hung após aparecer em uma matéria do New York Times, sobre as aulas de atuação para pessoas LGBT, das quais ela participava. Esse foi o ponto de virada na carreira da atriz, que ganhou um papel importante na série, interpretando uma recepcionista transexual que tinha um relacionamento amoroso com o ator principal da trama. Mas, apesar da enorme representatividade, nem tudo foram flores e as reações à atriz mostravam que o caminho ainda seria longo.

Além do público conservador, que qualquer produção mais vanguardista precisa enfrentar, declarações sobre o comportamento do protagonista da série só mostravam que muito preconceito ainda precisava ser enfrentado. Segundo Colette Burson, cocriadora da série,  “A ideia de beijar outro homem não era confortável para ele [Thomas Jane], mas ele foi ótimo. Eles tiveram que se beijar por horas. Após sua timidez inicial, ela se tornou uma mulher para ele”. 

A declaração dada de forma tão natural, enfatiza que o ator foi ótimo, mas na verdade aponta um grande preconceito, já que Jamie é uma mulher trans e não um homem. O preconceito voltaria a aparecer quando a atriz fazia vários testes e não conseguia papéis para interpretar mulheres cis, afinal, ela não era vista como uma delas, como se fosse capaz somente de interpretar uma mulher trans. Mas, ela também não conseguia papéis para interpretar mulheres trans, primeiro porque eles são raros, e também porque segundo muitos produtores, Jamie não parecia ser trans.

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Entretanto, mais uma vez em sua vida Jamie venceu. Ela conquistou um papel de destaque na premiada série Dirty Work e fez participações em outras séries, como Are We There Yet? e Hustling, até ser escalada para viver a hacker Nomi Marks em Sense8, papel que lhe daria visibilidade mundial. Mais importante do que a visibilidade, Nomi Marks é importante por ser uma personagem multifacetada. Ser transexual é apenas mais um traço de sua personalidade, o que é uma incrível representação para a comunidade trans.

“Então, hoje, eu estou marchando por aquela parte de mim que um dia teve medo de marchar. E, por todas as pessoas que não podem fazer isso, pessoas vivendo vidas como a que eu tive. Hoje, eu marcho para lembrar que não sou somente eu. Eu também sou nós.”

E, segundo entrevistas recentes, como essa para a TPM, é por isso que ela luta hoje na indústria do entretenimento: por conseguir papéis que vão além dos rótulos. Ela não quer mais ser vista como uma atriz transexual, mas sim como uma atriz capaz de interpretar bons papéis femininos, independente de serem cis ou trans. Mas, isso não significa que a atriz não seja engajada à causa LGBT e que não tenha orgulho da sua condição.

Muito pelo contrário, a garota nascida em San Diego estava destinada à transgredir e assumir papéis de heroísmo, como faz hoje. Ela é, inevitavelmente, uma das maiores expoentes da luta transexual no mundo e é um exemplo de que representatividade importa. Ela luta por um mundo onde qualquer pessoa possa ser, sem medo, aquilo tudo que é.

*Os trechos destacados foram retirados do discurso de Nomi Marks sobre orgulho no segundo episódio da primeira temporada de Sense8.