Project Power: a pílula que dá cinco minutos de poder
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Com Jamie Foxx e Joseph Gordon-Levitt, o thriller da Netflix de 2020 aposta tudo numa premissa brilhante e tropeça na pressa de caber em duas horas.

Project Power é um thriller de ficção científica da Netflix lançado em 14 de agosto de 2020. Dirigido por Henry Joost e Ariel Schulman e escrito por Mattson Tomlin, o filme se passa em uma Nova Orleans onde uma pílula clandestina chamada Power concede superpoderes por cinco minutos — sem que o usuário saiba qual poder vai receber nem se vai sobreviver à dose. Jamie Foxx, Joseph Gordon-Levitt e Dominique Fishback interpretam três personagens que se cruzam na caçada pela mesma droga. Seis anos depois da estreia, uma crítica publicada pelo Giant Freakin Robot reacende a pergunta que acompanha o longa desde o lançamento: como uma premissa tão boa terminou dentro de um filme tão apressado?
A regra é simples — e cruel
A mecânica de Power é o maior acerto do roteiro. A pílula não vem com manual, não escolhe o poder a dedo e não perdoa corpo despreparado. Pode entregar força sobre-humana, velocidade, pele endurecida — o catálogo habitual das histórias em quadrinhos — ou simplesmente matar quem a engole. O efeito dura cinco minutos, cronometrados. Em uma briga, isso obriga o usuário a decidir quando apostar tudo: o poder acaba no meio da confusão, não no fim dela.
O filme estabelece a regra logo no primeiro grande confronto. Art, personagem de Jamie Foxx, invade um prédio decadente de Nova Orleans atrás de um jovem traficante. O rapaz engole a pílula e vira uma bola de fogo humana. É o cartão de visita do longa — e a prova de que a produção sabia exatamente qual imagem vender.
“Na primeira vez que você toma, é roleta-russa de verdade”, escreveu Doug Norrie, crítico do Giant Freakin Robot, ao descrever a experiência dos personagens com a droga.
A frase resume o que o filme tem de melhor: a violência não é gratuita, é uma aposta. Cada dose é uma decisão física e econômica ao mesmo tempo. Quem usa está comprando cinco minutos de vantagem com risco de morte imediata — e o roteiro explora pouco essa ambiguidade.
Três personagens, três apostas
O longa distribui a narrativa entre três pontos de vista. Art é um ex-militar que virou caçador: depois que a filha é levada pela empresa responsável pela droga, ele passa a perseguir a origem do Power com a obstinação de um vingador. A crítica do GFR compara o personagem a John Creasy, de Chamas da Vingança, e a Bryan Mills, de Busca Implacável — heróis que fizeram da recuperação de um familiar o motor de tudo.
Robin, de Dominique Fishback, é a ponte com o mundo real. Adolescente, aspirante a rapper e traficante de Power para pagar a cirurgia da mãe, ela é quem dá rosto ao custo social da droga. Frank, de Joseph Gordon-Levitt, é o policial de Nova Orleans que acredita ter um senso de justiça próprio e não vê problema em tomar a pílula para impedir que outros “abusem” dela.
O elenco é o melhor ativo do filme. Fishback constrói Robin com uma mistura de dureza e vulnerabilidade que nenhum outro personagem alcança, e a química com Foxx sustenta os trechos em que o roteiro apenas empurra a trama para a próxima perseguição. Gordon-Levitt, por sua vez, diverte justamente quando o personagem deveria ser mais incômodo: um policial que se arma com a droga que apreende é uma ideia moralmente explosiva, e o filme a trata como detalhe de caracterização.
O homem em chamas que custou uma semana de filmagem
A sequência do apartamento é o momento mais comentado do longa, e não por acaso. Para rodá-la, Colson Baker, o Machine Gun Kelly, interpretou Newt vestindo um traje de efeito de queimadura equipado com luzes de LED. Um dublê repetia os movimentos do ator enquanto estava realmente em chamas, o que deu à equipe de efeitos chamas reais para trabalhar. Segundo o relato que Ariel Schulman deu ao Den of Geek em 2020 e que a crítica do GFR recupera, a sequência curta consumiu cerca de uma semana de filmagem.
O esforço aparece na tela. É uma das poucas passagens em que a violência tem peso, textura e consequência; o resto do filme persegue a mesma intensidade sem o mesmo cuidado. “É muito esforço para um único encontro, e ajuda a explicar por que a ação causa uma impressão mais forte do que a trama”, avaliou Norrie.
Nova Orleans não é só cenário
Nova Orleans entra na história com referências à dor deixada pelo furacão Katrina, à corrupção do sistema e à música como espinha dorsal da vida local. O resultado é um esforço válido, ainda que por vezes pesado demais — a avaliação é do próprio crítico do GFR.
A música não foi escolhida apenas para preencher os intervalos entre as lutas. Em entrevista ao SciFiNow em 2020, Schulman citou 8 Mile e Colateral como referências e explicou que os raps de Robin deveriam expressar o ponto de vista da personagem. A rapper Chika trabalhou com Fishback nas letras — e também aparece no filme como Akeela, colega de classe de Robin — depois que Jamie Foxx sugeriu seu nome para o projeto.
É a decisão mais interessante do longa fora das cenas de ação: dar à personagem uma voz que não seja apenas reação à violência. O problema é que o filme tem pressa. Enquanto Robin ganha especificidade, o resto do mundo ao redor continua genérico.
O que o filme não responde
A crítica do Giant Freakin Robot descreve uma sensação fácil de reconhecer: a de ter perdido algo, como se Project Power fosse a continuação de um filme que ninguém viu. Há fios por todos os lados, mas cada um para de se desenrolar antes de virar nó.
Quem é Art antes da tragédia? Como Frank entrou na guerra da pílula e há quanto tempo usa? Qual é a empresa com alcance quase ilimitado que opera abaixo do radar da corrupção? E, sobretudo, quão disseminado o Power está no mundo? São perguntas que o roteiro levanta e abandona.
“Project Power funcionaria muito melhor como uma série de televisão, distribuído por vários episódios, em vez de confinado a duas horas apertadas”, escreveu Norrie. “É impossível dar a Project Power qualquer coisa além de uma crítica negativa.”
A conclusão é dura, mas justa com o que o filme se propõe a ser. A premissa pedia uma temporada inteira — o mercado da droga, a biologia dos poderes, a rede de corrupção, o custo para quem usa —, algo mais próximo do que o formato seriado permite. Em 114 minutos, tudo isso vira pano de fundo para perseguições competentes e um desfecho que resolve o essencial sem responder o que importa.
Audiência gigante, recepção morna
O desempenho de audiência, porém, não deu razão aos críticos. Segundo a própria Netflix, 75 milhões de domicílios assistiram ao filme nas primeiras quatro semanas, e o longa foi o filme mais assistido da plataforma nos dois primeiros fins de semana após a estreia. O público compareceu; a crítica se dividiu. No Rotten Tomatoes, a aprovação ficou em 61%, com média de 5,7/10 em 178 análises; no Metacritic, a nota foi 51/100, a partir de 35 críticas.
O consenso das resenhas elogiava o elenco, as sequências de ação e os efeitos visuais, e apontava o roteiro como o elo fraco — a mesma leitura que a crítica de 2026 faz seis anos depois. Até hoje, a Netflix não anunciou uma continuação, apesar do final aberto.
Vale a pena assistir em 2026?
Depende do que se espera. Para quem procura um thriller de ação leve, com uma premissa que prende nos primeiros vinte minutos e um elenco carismático, Project Power cumpre o serviço. Para quem espera explorar as consequências de uma droga que transforma pessoas comuns em armas por cinco minutos, o filme frustra: as perguntas ficam todas na mesa.
A impressão que sobra é a de um piloto caro de uma série que nunca existiu. É um filme para ver uma vez, comentar a cena do homem em chamas e seguir adiante — o que, para um projeto com esse elenco e essa premissa, é pouco. Se a ideia de superpoderes como mercadoria interessa, vale comparar com outras produções do gênero no arquivo de filmes da Revista Pixel e com os lançamentos recentes de cultura pop.
Ficha técnica
- Direção
- Henry Joost e Ariel Schulman
- Roteiro
- Mattson Tomlin
- Elenco principal
- Jamie Foxx, Joseph Gordon-Levitt, Dominique Fishback, Colson Baker, Rodrigo Santoro, Courtney B. Vance
- Produção
- Eric Newman e Bryan Unkeless
- Fotografia
- Michael Simmonds
- Montagem
- Jeff McEvoy
- Música
- Joseph Trapanese
- Estreia
- 14 de agosto de 2020, na Netflix
- Duração
- 114 minutos
Perguntas frequentes
Em qual streaming assistir a Project Power?
O filme está disponível na Netflix, que produziu e distribuiu o longa. É um título original da plataforma, com estreia global em 14 de agosto de 2020.
Quanto tempo dura o efeito da pílula Power?
Cinco minutos. É essa limitação que define o ritmo das cenas de ação: o usuário precisa calcular quando tomar a dose e o que fazer quando o efeito termina no meio do combate.
Project Power é baseado em quadrinhos?
Não. O roteiro é original, escrito por Mattson Tomlin. A história não adapta nenhuma HQ, embora dialogue com o repertório clássico dos super-heróis.
Vai ter Project Power 2?
Até a publicação desta matéria, a Netflix não havia anunciado uma continuação. O final deixa o universo aberto, mas o filme funciona como história fechada.
Quem dirige Project Power?
Henry Joost e Ariel Schulman, dupla conhecida por Catfish, Atividade Paranormal 3 e 4 e Nerve. O roteiro é de Mattson Tomlin, e a produção ficou com Eric Newman e Bryan Unkeless.