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Revista Pixel

50ª Mostra de SP coroa drama colombiano sobre conflito

A 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo consagrou 'Cinco Anos, Quatro Meses' como Melhor Filme e premiou a diretora mexicana Fernanda Tovar.

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Cena do filme Cinco Anos, Quatro Meses, eleito Melhor Filme na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
· Foto: Divulgação / 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

A 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo encerrou sua histórica edição com a consagração de obras que investigam a memória, a violência histórica e as feridas sociais da América Latina. Na noite de encerramento realizada no recém-reaberto Teatro Cultura Artística, na capital paulista, a coprodução colombiano-americana Cinco Anos, Quatro Meses, dirigida por Esteban Hoyos García e Juan Miguel Gelacio, foi laureada como o Melhor Filme de Ficção pelo Júri Internacional. No mesmo palco, a cineasta mexicana Fernanda Tovar conquistou aclamação unânime com Chicas Tristes, faturando tanto o cobiçado Troféu Bandeira Paulista de Melhor Direção quanto o Prêmio da Crítica Internacional, consolidando a força do cinema autoral latino-americano na cobertura de cinema da Revista Pixel.

Com um público expressivo e centenas de títulos exibidos ao longo de duas semanas intensas na capital paulista, o festival comemorou meio século de resistência cinematográfica. A sessão de encerramento foi coroada pela exibição de Tudo Pode Ser Visto, aguardado projeto capitaneado por Nathan Fielder e Lance Oppenheim, antes do anúncio oficial dos vencedores escolhidos pelo corpo de jurados e pelo público.

A dor da memória em "Cinco Anos, Quatro Meses"

O grande vencedor da noite, Cinco Anos, Quatro Meses, mergulha em uma das chagas mais profundas e prolongadas do continente: as cicatrizes humanas deixadas pelas décadas de conflito armado na Colômbia. O enredo é centrado na trajetória de Martha, uma mãe que atravessa territórios rurais e burocráticos em busca dos restos mortais de seu filho, jovem desaparecido em meio aos confrontos violentos que devastaram comunidades inteiras no interior colombiano.

Ao longo dessa peregrinação física e espiritual, Martha conhece Sandra, mulher que também carrega suas próprias perdas. Juntas, elas empreendem uma expedição silenciosa até um vilarejo remoto onde, segundo uma lenda regional transmitida entre gerações de sobreviventes, é possível realizar uma súplica diretamente a um morto para alcançar respostas que os vivos se recusam a dar. A direção de García e Gelacio opta por um ritmo contemplativo, recusando a espetacularização da violência para focar na dignidade da busca e na solidariedade feminina diante do luto coletivo.

“Cinco Anos, Quatro Meses não trata a dor do conflito colombiano apenas como um dado histórico, mas como uma ferida aberta que exige escuta, presença e afeto das gerações presentes.”
Cena de Cinco Anos, Quatro Meses, filme vencedor da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
Cena do longa colombiano Cinco Anos, Quatro Meses, eleito Melhor Filme na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. (Foto: Divulgação / 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo)

"Chicas Tristes": o olhar potente de Fernanda Tovar

Se a Colômbia dominou a escolha de Melhor Filme de Ficção, o México brilhou com o impactante Chicas Tristes, da diretora Fernanda Tovar. O longa examina com extrema sensibilidade e urgência os limites da amizade entre Paula e La Maestra, duas jovens de 16 anos cujas vidas são abaladas após Paula sofrer uma violência sexual brutal. A partir do crime, as reações opostas das amigas criam um abismo silencioso entre elas: enquanto La Maestra exige vingança, denúncia e confronto imediato, Paula necessita do isolamento, do silêncio e de tempo para processar o trauma físico e psicológico.

A abordagem de Fernanda Tovar chamou a atenção dos jurados e da imprensa especializada por não transformar a violência em espetáculo dramático, focando antes na incompreensão mútua e na desestruturação de laços juvenis em uma sociedade patriarcal. A vitória dupla de Tovar — levando Direção pelo júri oficial e o Prêmio da Crítica — posiciona a cineasta como uma das vozes mais promissoras do novo audiovisual latino-americano, como amplamente repercutido na seção de cultura pop e análises.

Cena do filme Chicas Tristes, dirigido pela mexicana Fernanda Tovar
Cena do drama mexicano Chicas Tristes, que rendeu a Fernanda Tovar os prêmios de Melhor Direção e da Crítica Internacional. (Foto: Divulgação / 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo)

O protagonismo do cinema brasileiro e os prêmios da crítica

A produção brasileira teve papel de destaque ao longo de toda a premiação. O grande destaque nacional da noite foi o novo projeto do cineasta goiano Daniel Nolasco, Pequenas Tragédias, que arrematou o cobiçado Prêmio da Crítica de Melhor Filme Brasileiro. Na obra, Nolasco revisita com tom íntimo e memorialista seu antigo círculo de amigos da juventude, formado majoritariamente por pessoas queer que deixaram a mesma cidadezinha do interior do Brasil para escapar da asfixia conservadora e reconstruir suas identidades em centros urbanos.

O filme de Nolasco combina elementos de ficção encenada e registro documental, criando um diálogo poético entre a saudade da terra natal e os traumas da exclusão. A distinção concedida pela crítica brasileira celebra a coragem formal de um cinema que não teme expor o desejo, a vulnerabilidade e os afetos de corpos marginalizados.

Cena do filme Pequenas Tragédias, dirigido por Daniel Nolasco
Registro de Pequenas Tragédias, longa de Daniel Nolasco consagrado com o Prêmio da Crítica na Mostra de São Paulo. (Foto: Divulgação / 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo)

Nas votações populares, o público paulistano premiou a diversidade narrativa. Na categoria de Filme de Ficção Brasileiro pelo Voto do Público, houve um empate histórico entre Feito Pipa, dirigido pelo cearense Allan Deberton (consagrado realizador de Pacarrete), e 100 Dias, superprodução dirigida por Carlos Saldanha que retrata a épica travessia marítima a remo do explorador Amyr Klink pelo Atlântico Sul. Já no campo dos documentários nacionais, o público elegeu Fernanda, de Pedro Waddington, como o melhor trabalho da mostra.

O júri internacional e as honrarias históricas

A escolha dos vencedores da 50ª edição coube a um júri internacional de grande prestígio, composto pelo cineasta iraniano Ali Asgari, pelo diretor e roteirista norte-americano Boots Riley (de Desculpe Te Incomodar), pelo premiado realizador colombiano César Augusto Acevedo (vencedor do Caméra d'Or em Cannes por A Terra e a Sombra) e pela consagrada cineasta brasileira Laís Bodanzky (de Bicho de Sete Cabeças).

Além das mostras competitivas, o festival celebrou grandes mestres do cinema mundial com distinções especiais de carreira. O tradicional Prêmio Humanidade foi concedido ao cineasta ítalo-chileno Marco Bechis, conhecido por obras seminais sobre as ditaduras latino-americanas como Garagem Olimpo. Já o prestigioso Prêmio Leon Cakoff celebrou simultaneamente três gigantes da sétima arte: o diretor nova-iorquino James Gray, o lendário produtor português Paulo Branco e o aclamado diretor indiano S.S. Rajamouli, mente criativa por trás do fenômeno global RRR.

Vencedores da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Confira a relação completa dos filmes e profissionais premiados em todas as categorias oficiais da 50ª edição:

Categoria Vencedor / Obra Direção / Realização
Melhor Filme de Ficção (Júri)Cinco Anos, Quatro MesesEsteban Hoyos García e Juan Miguel Gelacio
Melhor Documentário (Júri)O Beija-flor Pinta Canções PerfumadasMatteo Norzi e Èlia Gasull Balada
Melhor Direção (Júri)Chicas TristesFernanda Tovar
Prêmio Especial do JúriEdward Said: Entre MundosMaiken Baird
Prêmio da Crítica | Filme InternacionalChicas TristesFernanda Tovar
Prêmio da Crítica | Filme BrasileiroPequenas TragédiasDaniel Nolasco
Prêmio do Público | Ficção BrasileiraFeito Pipa (empate)
100 Dias (empate)
Allan Deberton
Carlos Saldanha
Prêmio do Público | Documentário BrasileiroFernandaPedro Waddington
Prêmio do Público | Ficção InternacionalO Sentido da VidaRyūsuke Hamaguchi
Prêmio do Público | Documentário InternacionalO Beija-flor Pinta Canções PerfumadasMatteo Norzi e Èlia Gasull Balada
Prêmio NetflixTalismãThais Fujinaga
Prêmio Projeto ParadisoA Professora de FrancêsRicardo Alves Jr.
Prêmio Brada de Direção de ArteO Julgamento de HeinKai Stänicke
Prêmio Prisma Queer | InternacionalEu Planto Minha Mão no JardimBoris Hadžija e Hoda Taher
Prêmio Prisma Queer | BrasileiroLondonVictor Di Marco e Márcio Picoli
Prêmio Prisma Queer | Especial do JúriA Paixão Segundo G.H.B.Gustavo Vinagre e Viva Couto
Prêmio HumanidadeHomenagem EspecialMarco Bechis
Prêmio Leon CakoffHomenagem EspecialJames Gray, Paulo Branco e S.S. Rajamouli

O legado da Mostra e o horizonte da temporada

Ao completar cinco décadas consecutivas de exibições em São Paulo, o festival reafirma sua condição de vitrine indispensável para o cinema de autor global e ponte decisiva para lançamentos no circuito comercial brasileiro. A aclamação de obras centradas na resistência comunitária e na dignidade de memórias submersas aponta para uma temporada em que o público e a crítica continuam valorizando histórias profundas e autênticas.

Para conferir a cobertura completa do circuito de festivais e estreias de streaming, acompanhe a página principal de cinema na Revista Pixel.

Com informações apuradas pela Folha de S.Paulo e da assessoria oficial da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

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