Magic: The Gathering pode superar Arcane na Netflix
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Com Terry Matalas, Patrick Osborne e o estúdio DIGIC, a série animada de Magic: The Gathering quer herdar o prestígio deixado por Arcane na Netflix.

A Netflix mantém em produção uma série animada de Magic: The Gathering, o jogo de cartas colecionáveis da Wizards of the Coast, e o projeto se tornou o principal candidato a herdar o prestígio de Arcane no catálogo de fantasia adulta do streaming. A atração foi retomada em setembro de 2024, depois do cancelamento de uma primeira versão, e reúne o showrunner Terry Matalas (12 Monkeys, Star Trek: Picard), o diretor vencedor do Oscar Patrick Osborne (Feast) e o estúdio húngaro DIGIC Pictures. A história acompanha a piromante Chandra Nalaar e os planeswalkers Ajani Goldmane e Jace Beleren em um multiverso de mundos distintos. Até a publicação desta reportagem, a Netflix não havia anunciado data de estreia.
Uma segunda chance depois de sete anos
O caminho de Magic até a tela é tão acidentado quanto o de seus personagens. A primeira adaptação foi anunciada em 2019, com Joe e Anthony Russo, diretores de Vingadores: Ultimato, como produtores. Em 2021, o ator Brandon Routh revelou que havia sido escalado para o papel principal, e a produção chegou a ser escrita e gravada. Três anos depois, o próprio Routh confirmou que aquela versão havia sido descartada dentro de uma leva de cancelamentos de projetos animados da Netflix.
Em setembro de 2024, durante a Geeked Week, a plataforma anunciou um recomeço completo. Terry Matalas assumiu como showrunner e produtor executivo, com Patrick Osborne como diretor-supervisor e produtor executivo. A produção passou a ser feita em parceria com a Hasbro Entertainment e a Wizards of the Coast, donas da propriedade. Na mesma ocasião, a Netflix divulgou a primeira imagem oficial: duas silhuetas diante de um céu vermelho, com Chandra em destaque e Ajani ao lado.
O anúncio não veio com data, elenco de voz ou número de episódios. Desde então, as atualizações chegaram em conta-gotas — o que, para uma franquia com histórico de promessas não cumpridas, virou parte da expectativa. A diferença é que, desta vez, existe uma equipe anunciada, um estúdio contratado e um roteiro completo.
Quem comanda a adaptação
Matalas não é um nome novo para quem acompanha ficção científica na televisão. Ele criou 12 Monkeys, foi showrunner da terceira temporada de Star Trek: Picard e assinou VisionQuest, série da Marvel Television lançada em 2026. A escolha sinaliza uma abordagem mais interessada em mitologia serializada do que em nostalgia fácil: o currículo dele é construído sobre arcos longos, viagens no tempo e personagens que carregam o peso das próprias escolhas.
Ao lado dele, Osborne traz o repertório da animação de grande estúdio. Ele trabalhou em Operação Big Hero 6 e Detona Ralph e venceu o Oscar de melhor curta de animação por Feast, da Disney. Simon Rogers, veterano de design de produção, assina a direção de arte. A animação ficou a cargo da DIGIC Pictures, estúdio de Budapeste conhecido por cinemáticas de games como Assassin's Creed Shadows, Rainbow Six Siege e Star Wars Outlaws, além da série Secret Level, da Prime Video.
O anúncio da DIGIC foi feito no Festival de Annecy de 2025, quando a Netflix apresentou o projeto na categoria de animação adulta. Na ocasião, Matalas já havia declarado que todos os roteiros da primeira temporada estavam prontos e que a produção avançava para elenco e animática. O formato escolhido é CGI — decisão que o showrunner justificou pela necessidade de retratar dezenas de mundos e efeitos mágicos sem o custo proibitivo de uma superprodução live-action. Os detalhes estão no comunicado oficial da DIGIC e no anúncio da Netflix.
"Foi uma colaboração dos sonhos absoluta com a Netflix, a Hasbro Entertainment, a Wizards of the Coast e o brilhante Patrick Osborne para levar os muitos mundos de Magic: The Gathering ao streaming. Quem está chegando agora a esta saga vasta vai descobrir o que milhões de fãs que jogam todos os dias já sabem: Magic é o maior playground narrativo que existe, repleto de personagens icônicos e complexos, poderes extraordinários e portais para todos os gêneros imagináveis. É também um lembrete poderoso de que, não importa de que cultura, país ou plano de existência você venha, podemos nos unir e nos tornar heróis juntos."
Chandra, Ajani e Jace: o fio condutor
A escolha de Chandra como protagonista não é casual. A piromante é uma das personagens mais recorrentes do jogo desde sua primeira carta, em 2007, e concentra temas que funcionam bem em drama televisivo: perda, impulsividade, culpa e a dificuldade de controlar um poder que pode destruir tudo ao redor. Matalas contou que se aproximou da personagem ao mergulhar na história do jogo e decidiu usá-la como ponto de entrada para o público que nunca tocou em uma carta.
Ajani Goldmane, o leonino planeswalker ligado à magia branca, e Jace Beleren, o mago azul da mente, completam o trio principal. A combinação permite ao roteiro alternar entre ação, estratégia e mistério — algo que a própria estrutura de Magic favorece, já que cada plano de existência tem regras próprias de magia, política e visual.
É nesse ponto que a série se diferencia de outras adaptações de jogos. Em vez de converter uma única campanha em temporada, o universo de Magic funciona como uma antologia de mundos conectados por um elenco fixo. Kamigawa pode ser cyberpunk; Innistrad, terror gótico; Ravnica, intriga urbana. A produção pode mudar de gênero sem trocar de franquia, uma vantagem narrativa que poucos catálogos oferecem.
"Estamos muito empolgados em trazer Magic: The Gathering para a tela pela primeira vez. Baseada em um dos jogos de cartas colecionáveis mais populares de todos os tempos, esta é a franquia que iniciou e definiu o gênero há três décadas e continua forte. Esta série é uma saga de fantasia épica centrada em três magos poderosos, os planeswalkers, capazes de viajar por mundos infinitos, cada um vividamente distinto do outro."
O legado de Arcane e a comparação inevitável
Arcane encerrou a trajetória em duas temporadas, lançadas em 2021 e 2024, e deixou uma régua difícil de ignorar. Produzida pela Fortiche para a Riot Games, a série adaptou o universo de League of Legends com um visual pictórico que mistura pintura e animação 3D, e transformou uma rivalidade entre irmãs em um drama sobre classe, tecnologia e trauma.
Os números explicam o peso da comparação. A primeira temporada liderou o Top 10 da Netflix em 52 países na semana de estreia e se tornou a primeira série de streaming a vencer o Emmy de Melhor Programa Animado, em 2022. Ao todo, a produção acumulou oito Emmys e nove prêmios Annie apenas na primeira leva de episódios. A segunda temporada passou cinco semanas consecutivas no Top 10 global da plataforma.
| Arcane | Magic: The Gathering | |
|---|---|---|
| Obra-base | League of Legends (Riot Games) | Jogo de cartas da Wizards of the Coast (Hasbro) |
| Estúdio | Fortiche (França) | DIGIC Pictures (Hungria) |
| Formato | Animação 3D com acabamento pictórico, duas temporadas | CGI, primeira temporada em produção |
| Comando criativo | Christian Linke e Alex Yee | Terry Matalas, Patrick Osborne e Simon Rogers |
| Estreia | 2021 e 2024 | Sem data anunciada |
| Reconhecimento | Oito Emmys e nove Annies na primeira temporada | Ainda não avaliada |
O que Magic pode fazer que Arcane não podia — e onde estão os riscos
A franquia de cartas tem uma escala que League of Legends não oferecia na mesma medida. São mais de 27 mil cartas distintas, lançadas desde 1993, e um universo que já passou por fantasia medieval, ficção científica, horror e comédia. A Wizards of the Coast estima 50 milhões de jogadores no mundo e um faturamento anual superior a US$ 1 bilhão, números que explicam por que a Hasbro trata a propriedade como prioridade de licenciamento.
Para a Netflix, isso significa uma franquia com público pré-existente e potencial de desdobramento em várias temporadas, spin-offs e produtos. Para o público, significa a chance de acompanhar uma história que não precisa se esgotar em dois anos. É exatamente o tipo de propriedade que a plataforma persegue desde que Stranger Things mostrou o valor de um universo narrativo próprio.
Os riscos, porém, são proporcionais. O primeiro é técnico: o CGI realista da DIGIC será comparado ao visual artesanal de Arcane, e qualquer rigidez de animação pode virar argumento contra a série. O segundo é narrativo: adaptar uma mitologia extensa sem perder o espectador novato é o mesmo desafio que a Riot enfrentou — e resolveu ao reduzir o escopo à relação entre Vi e Jinx.
O terceiro é calendário. O projeto acumula sete anos de idas e vindas, e a Netflix ainda não marcou a estreia. Em agosto de 2026, a série apareceu apenas como "em breve" em uma lista de animações da plataforma, sem janela definida. Para uma produção que já foi cancelada uma vez, a ausência de data é um lembrete de que nada está garantido até o lançamento.
Há também a pressão de representação. Matalas disse que a Hasbro e a Wizards of the Coast acompanham de perto o desenvolvimento, mas descreveu a relação como colaborativa. O equilíbrio entre agradar fãs de longa data e conquistar quem nunca jogou é o teste final — e o motivo pelo qual a série não pode ser apenas uma sequência de easter eggs para iniciados.
O que já está confirmado — e o que falta
- Formato: série animada adulta em CGI, com produção da Netflix em parceria com Hasbro Entertainment e Wizards of the Coast.
- Equipe: Terry Matalas (showrunner), Patrick Osborne (direção), Simon Rogers (direção de arte) e DIGIC Pictures (animação).
- Protagonistas: Chandra Nalaar em foco, ao lado de Ajani Goldmane e Jace Beleren.
- Roteiro: todos os episódios da primeira temporada estavam escritos em maio de 2025, segundo Matalas.
- Estreia: sem data, trailer ou elenco de voz anunciados até 3 de novembro de 2026.
O que falta, portanto, é o mais importante: material audiovisual e uma data. A Netflix costuma concentrar o marketing de suas animações adultas poucas semanas antes do lançamento, como fez com Arcane e com outras apostas do gênero. Se a série seguir o mesmo roteiro, o primeiro trailer deve chegar junto com o anúncio oficial da janela de estreia.
Até lá, a comparação com Arcane vai continuar. A diferença é que Magic: The Gathering não precisa repetir o feito da série da Riot para ser bem-sucedida: precisa apenas provar que um jogo de cartas de três décadas pode virar drama de televisão sem depender do conhecimento prévio do espectador. Se conseguir, a Netflix terá achado não uma substituta, mas uma franquia com fôlego para a próxima década.
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